{"id":15079,"date":"2014-05-05T08:54:22","date_gmt":"2014-05-05T11:54:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.radiopajeu.com.br\/portal\/?p=15079"},"modified":"2014-05-05T08:54:22","modified_gmt":"2014-05-05T11:54:22","slug":"zelador-do-mube-eletricista-baiano-faz-sucesso-no-mercado-de-arte-de-sp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.radiopajeu.com.br\/portal\/zelador-do-mube-eletricista-baiano-faz-sucesso-no-mercado-de-arte-de-sp\/","title":{"rendered":"Zelador do MuBE, eletricista baiano faz sucesso no mercado de arte de SP"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Wilton Rodrigues mora no Museu Brasileiro da Escultura h\u00e1 16 anos. <\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Montador cobi\u00e7ado, ele diz que \u00e9 assediado por diversos artistas do pa\u00eds.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 20 anos, Wilton Silva Rodrigues \u00e9 respons\u00e1vel pela montagem e ilumina\u00e7\u00e3o de todas as exposi\u00e7\u00f5es que ocorrem no Museu Brasileiro da Escultura, o MuBE, na Zona Sul de S\u00e3o Paulo. Graduado no assunto, ele garante que seu trabalho \u00e9 o arremate final. &#8220;Saber iluminar as obras expostas valoriza o artista. Fica bonito pra caramba&#8221;, defende.<\/p>\n<p>Conhecido como &#8220;Baixinho&#8221; gra\u00e7as \u00e0 autoexplicativa estatura \u2013 ele mede 1,50 e se diz \u201cquase an\u00e3o\u201d \u2013 o eletricista baiano acumulou conhecimento em arte e fez n\u00e3o somente carreira como a vida dentro do museu. Wilton \u00e9 zelador do MuBE. Reside em uma casa de dois quartos, constru\u00edda para ele morar com o filho \u00fanico, desde 1998.<\/p>\n<p>O baiano habita o prov\u00e1vel im\u00f3vel mais curioso da cidade, e \u00e9 um dos raros zeladores de museu \u2013 qui\u00e7\u00e1 o \u00fanico. Dos museus administrados pelo governo, nenhum deles t\u00eam tal funcion\u00e1rio, segundo informou a Secretaria de Estado da Cultura. O terreno ocupado pelo MuBE pertence \u00e0 prefeitura de S\u00e3o Paulo, que cedeu em regime de comodato \u00e0 iniciativa privada. Nas institui\u00e7\u00f5es administradas pela gest\u00e3o municipal, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 o registro de zeladores.<\/p>\n<p>Baixinho, por\u00e9m, revela que j\u00e1 se acostumou a viver cercado de quadros e esculturas. Diz que s\u00f3 n\u00e3o consegue esquecer que seu endere\u00e7o fixo \u00e9 dentro de um museu porque \u00e9 acionado a todo o momento para resolver problemas.<\/p>\n<p>\u201cQualquer coisa que acontece o pessoal chama. De todo o jeito voc\u00ea est\u00e1 dentro do museu. O presidente (do MuBE) diz que sou o secret\u00e1rio dele. Eu que fa\u00e7o tudo, n\u00e9?\u201d Seu filho, por\u00e9m, ainda v\u00ea o lado l\u00fadico do lugar onde foi criado. &#8220;\u00c9 diferente. Quando crian\u00e7a, todo mundo perguntava &#8216;como assim voc\u00ea mora num museu?&#8217;. Mas foi muito bom viver com todo esse espa\u00e7o e acesso&#8221;, relata Alex Campos Rodigues, de 21 anos.<\/p>\n<p><strong>Trajet\u00f3ria<\/strong><br \/>\nWilton Rodrigues migrou para S\u00e3o Paulo aos 18 anos. Era assistente de eletricista em Itaberaba, na Bahia. Buscava no sudeste capacita\u00e7\u00e3o e um emprego rent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Seguiu o caminho de dois irm\u00e3os que j\u00e1 moravam na capital. Chegou \u00e0 cidade h\u00e1 30 anos \u2013 em maio de 1984.<\/p>\n<p>Dez anos depois, era funcion\u00e1rio de uma empresa que prestava servi\u00e7o para o museu.<\/p>\n<p>Foi respons\u00e1vel pela instala\u00e7\u00e3o da rede el\u00e9trica do MuBE, e acabou sendo contratado. Em pouco tempo, descobriu um novo of\u00edcio. \u201cFiz a el\u00e9trica inteira, e diretoria me chamou para fazer a manuten\u00e7\u00e3o do museu. Eu fazia a ilumina\u00e7\u00e3o das exposi\u00e7\u00f5es, e ajudava os caras a montar. O pessoal viu que eu tinha talento para a coisa, e me pediram para fazer.\u201d<\/p>\n<p>Orgulha-se de em 1998 ter feito sua primeira montagem solo. No mesmo ano, passou a morar no museu. A ideia partiu da diretoria da institui\u00e7\u00e3o, que viu na constru\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel a solu\u00e7\u00e3o para o problema de descolamento de Rodrigues nas madrugadas p\u00f3s-exposi\u00e7\u00e3o. \u201cEu ficava no evento at\u00e9 terminar. E tinha que ir embora tarde.<\/p>\n<p>Morava em Itapecerica da Serra, era complicado&#8221;, comenta.<\/p>\n<p><strong>Turma do Penadinho<\/strong><br \/>\nNessas duas d\u00e9cadas de m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es, ele garante que fez diversos cursos por tabela, e acredita que teve a sorte de conviver com arte \u2013 \u00e1rea da cultura que avalia como pouco democr\u00e1tica. \u201cA arte n\u00e3o \u00e9 acess\u00edvel. \u00c9 para gente de classe m\u00e9dia para alta. Est\u00e1 muito longe de ser acess\u00edvel. Precisa de incentivo e ensino.<\/p>\n<p>Eu nem estudei, n\u00e3o. Foi pr\u00e1tica mesmo de trabalhar com muitos artistas. Mas se n\u00e3o se interessar n\u00e3o aprende. Eu me interessei. Hoje de olhar eu j\u00e1 sei quem \u00e9 quem, de quem s\u00e3o as obras. Se eu tivesse dinheiro eu investiria em arte. S\u00e3o coisas que voc\u00ea n\u00e3o perde, s\u00f3 valoriza.\u201d<\/p>\n<p>Em sua casa, guarda uma infinidade de livros sobre as exposi\u00e7\u00f5es que montou, diversos com dedicat\u00f3ria dos artistas. Recorda de muitos, e demonstra intimidade com v\u00e1rios. Lamenta o falecimento do artista pl\u00e1stico Gustavo Rosa (que morreu em novembro de 2013) \u2013 um de seus prediletos. \u201cJ\u00e1 montei umas tr\u00eas exposi\u00e7\u00f5es para ele. Acho o maior barato o trabalho dele.\u201d<\/p>\n<p>Mas \u00e9 do acervo do Pal\u00e1cio dos Bandeirantes que mais teve receio. \u201cEram s\u00f3 obras de quatro por cinco metros, s\u00f3 obra que custa R$100 mil, R$1 milh\u00e3o. E eu montei sozinho. Essa eu fiquei com medo. Pra mim, ela foi a mais importante que eu vi aqui. Era s\u00f3 Picasso, Tarsila do Amaral. A Pol\u00edcia militar que ficou tomando conta durante dois meses.\u201d<\/p>\n<p>Manusear quadros raros, caros e pe\u00e7as delicad\u00edssimas, entretanto, n\u00e3o \u00e9 a parte mais assustadora da vida dentro de um museu. Rodrigues afirma que o local \u00e9 mal-assombrado, e confessa que \u00e0 noite n\u00e3o pisa no sal\u00e3o expositivo do MuBE de jeito nenhum. Aos 47 anos, cansou perder o f\u00f4lego com o que j\u00e1 presenciou ali.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 terr\u00edvel. Antigamente eu ficava l\u00e1 desmontado exposi\u00e7\u00e3o. Parei, n\u00e3o fico mais. Escutava gente batendo palma, fazendo barulho. Ficava todo arrepiado e corria. \u00c9 fogo. N\u00e3o monto mais sozinho, s\u00f3 se tiver gente comigo. J\u00e1 corri muito de l\u00e1 de dentro. Todo museu tem assombra\u00e7\u00e3o. Esse aqui tem. Entra l\u00e1 sozinha que eu quero ver. Dizem que onde tem muita imagem tem essas coisas.\u201d<\/p>\n<p><strong>S\u00f3 gra\u00fados<\/strong><br \/>\nNos mais de 20 anos de profiss\u00e3o, fez fama com a &#8220;granfinada&#8221; paulistana, que solicita seus servi\u00e7os por telefone. Afirma que j\u00e1 recebeu mais de 100 propostas para mudar de emprego e perdeu as contas de quantas montagens fez, dentro e fora do museu. \u00c9 frequentemente assediado pelos entendidos de arte &#8211; de curadores a artistas renomados.<\/p>\n<p>Hoje, faz montagens e ilumina\u00e7\u00e3o para mais de 20 clientes fora do MuBE. \u201cMonto exposi\u00e7\u00e3o em um monte de lugar. Aqui s\u00f3 vem artista importante. No boca a boca, por indica\u00e7\u00e3o, passei a prestar esse servi\u00e7o. E eles sempre convidam para trabalhar com eles\u201d, explica.<\/p>\n<p>Por conta do sucesso, planeja abrir um neg\u00f3cio pr\u00f3prio e seguir prestando servi\u00e7o particular. Declara todo amor que sente por S\u00e3o Paulo, mas quer mudar de endere\u00e7o o quanto antes. \u201cSonho em ganhar um pouco de grana e sair de S\u00e3o Paulo. Ou voltar para Bahia, ou viver no interior de S\u00e3o Paulo. Adoro a cidade, mas n\u00e3o d\u00e1. Tenho muito medo de assalto. J\u00e1 me roubaram tr\u00eas motos na rua. Quero uma vida mais tranquila.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilton Rodrigues mora no Museu Brasileiro da Escultura h\u00e1 16 anos. 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