{"id":15261,"date":"2014-05-08T08:50:27","date_gmt":"2014-05-08T11:50:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.radiopajeu.com.br\/portal\/?p=15261"},"modified":"2014-05-08T08:50:27","modified_gmt":"2014-05-08T11:50:27","slug":"prova-de-selecao-para-diplomata-revolta-candidatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.radiopajeu.com.br\/portal\/prova-de-selecao-para-diplomata-revolta-candidatos\/","title":{"rendered":"Prova de sele\u00e7\u00e3o para diplomata revolta candidatos"},"content":{"rendered":"<p>Tradicionalmente um dos mais dif\u00edceis do pa\u00eds, concurso est\u00e1 especialmente concorrido; participantes dizem que prova se tornou excessivamente &#8216;subjetiva&#8217;.<\/p>\n<p>Em que ano a Indon\u00e9sia e o Suriname se tornaram independentes? O que dizia a Lei Agamenon Magalh\u00e3es, de 1945, que tratou do registro de partidos pol\u00edticos no pa\u00eds? Quais os crit\u00e9rios para a classifica\u00e7\u00e3o de exporta\u00e7\u00f5es brasileiras por fator agregado?<br \/>\nPara que acertassem tr\u00eas quest\u00f5es da sele\u00e7\u00e3o em curso para a carreira diplom\u00e1tica, os candidatos deveriam saber responder as perguntas acima. Os crit\u00e9rios para a formula\u00e7\u00e3o da prova revoltaram postulantes ao cargo e trouxeram \u00e0 tona um debate sobre a sele\u00e7\u00e3o de diplomatas no Brasil.<\/p>\n<p>Tradicionalmente um dos mais dif\u00edceis do pa\u00eds, o concurso para o Instituto Rio Branco &#8211; que forma os diplomatas brasileiros &#8211; est\u00e1 especialmente concorrido neste ano.<\/p>\n<p>Cerca de 4 mil inscritos disputam apenas 18 vagas, com sal\u00e1rio inicial de R$ 14.290,72. A sele\u00e7\u00e3o, que teve a primeira etapa no in\u00edcio de abril, entrou na segunda fase neste s\u00e1bado e se encerra em 17 de maio.<\/p>\n<p>Candidatos descontentes com os atuais crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o criaram no Facebook o grupo &#8216;Por um CACD (Concurso de Admiss\u00e3o \u00e0 Carreira Diplom\u00e1tica) mais objetivo&#8217;. Na sexta, o grupo contava 199 membros.<\/p>\n<p>Eles querem que os formuladores da prova comentem os gabaritos e que as quest\u00f5es sejam elaboradas a partir de uma bibliografia, para evitar interpreta\u00e7\u00f5es divergentes sobre os temas cobrados. Defendem ainda que, se os candidatos tiverem negados pedidos de revis\u00e3o da prova, os examinadores justifiquem suas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma candidata que concorria ao exame pelo quarto ano seguido e n\u00e3o se classificou para a segunda fase diz ter desistido da carreira porque &#8216;a prova se tornou muito subjetiva&#8217;.<\/p>\n<p>Ela afirma ainda que boa parte dos conte\u00fados cobrados nos \u00faltimos concursos dificilmente ser\u00e1 aplicada na carreira. A candidata cita a prova de ingl\u00eas em 2013, em que se exigia a tradu\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas para o portugu\u00eas de um texto que mencionava diversos tipos de sons emitidos por p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>O candidato deveria saber as palavras em portugu\u00eas correspondentes aos termos &#8216;cackle&#8217;, &#8216;croak&#8217;, &#8216;whistle&#8217; e &#8216;squawk&#8217; &#8211; segundo o dicion\u00e1rio Michaelis, as tradu\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas s\u00e3o, respectivamente, &#8216;cacarejar&#8217;, &#8216;coaxar&#8217;, &#8216;assobiar&#8217; e &#8216;grasnar&#8217;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pesaram &#8211; em sua decis\u00e3o de desistir &#8211; os gastos que teria com mais um ano de prepara\u00e7\u00e3o. Hoje, por causa da dificuldade da prova, grande parte dos aprovados no Instituto Rio Branco recorre a cursos preparat\u00f3rios para o exame.<\/p>\n<p>O curso mais popular, o Clio, cobra cerca de R$ 30 mil por cinco meses de aulas para todas as disciplinas exigidas no exame. A prova requer conhecimentos de geografia, hist\u00f3ria, portugu\u00eas, pol\u00edtica internacional, direito, economia, ingl\u00eas, espanhol e franc\u00eas.<\/p>\n<p>Alguns candidatos concorrem ao exame quatro ou cinco vezes at\u00e9 serem aprovados. A maioria, por\u00e9m, desiste de tentar a vaga ap\u00f3s alguma reprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores disse que o rigor da sele\u00e7\u00e3o se deve ao grande n\u00famero de candidatos. Segundo a pasta, outros concursos p\u00fablicos para carreiras concorridas t\u00eam grau de dificuldade equivalente.<\/p>\n<p>O minist\u00e9rio afirmou que a elabora\u00e7\u00e3o das provas \u00e9 responsabilidade do Cespe (Centro de Sele\u00e7\u00e3o e de Promo\u00e7\u00e3o de Eventos), da Universidade de Bras\u00edlia (UnB).<\/p>\n<p>Em nota, o Cespe afirmou que a prova &#8216;\u00e9 estabelecida com base na complexidade e nas caracter\u00edsticas do cargo p\u00fablico para o qual a sele\u00e7\u00e3o est\u00e1 destinada&#8217;.<\/p>\n<p>&#8216;A explicita\u00e7\u00e3o da referida estrutura \u00e9 feita no edital de abertura do certame, ao qual o candidato adere ao efetuar a sua inscri\u00e7\u00e3o. O Cespe\/UnB esclarece, ainda, que os editais de abertura de todos os concursos, que cont\u00eam as regras que regem os certames, s\u00e3o definidos em comum acordo entre as institui\u00e7\u00f5es contratante e contratada.&#8217;<\/p>\n<p><strong>Menos vagas<\/strong><br \/>\nNos \u00faltimos anos, outro fator tem desencorajado aspirantes a diplomata. Ap\u00f3s contratar cem diplomatas ao ano entre 2006 e 2010, em movimento concomitante \u00e0 abertura de embaixadas brasileiras no exterior, o Itamaraty vem reduzindo o n\u00famero de admiss\u00f5es anuais.<\/p>\n<p>O n\u00famero de postos oferecidos neste ano, 18, \u00e9 o menor desde que o Instituto Rio Branco passou a registr\u00e1-los, em 1996, quando 30 diplomatas foram contratados.<\/p>\n<p>O Itamaraty disse \u00e0 BBC Brasil que o n\u00famero de vagas obedece a decis\u00e3o do Minist\u00e9rio do Planejamento e reflete os esfor\u00e7os de conten\u00e7\u00e3o de gastos em todo o governo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, para Oliver Stuenkel, professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas, as vagas ofertadas neste ano s\u00e3o insuficientes para atender \u00e0s necessidades da pol\u00edtica externa brasileira.<\/p>\n<p>&#8216;O n\u00famero, que \u00e9 historicamente baixo, mostra que o governo atual n\u00e3o tem um compromisso muito s\u00e9rio com o projeto da pol\u00edtica externa e n\u00e3o se importa muito com quest\u00f5es globais&#8217;, ele diz \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<p><strong>Corpos diplom\u00e1ticos<\/strong><br \/>\nSegundo Stuenkel, mesmo com a expans\u00e3o de postos nos anos Lula, o Brasil segue com um dos menores corpos diplom\u00e1ticos entre todos os pa\u00edses emergentes.<\/p>\n<p>&#8216;A decis\u00e3o de n\u00e3o continuar com a expans\u00e3o tem consequ\u00eancias importantes, porque o Brasil n\u00e3o ter\u00e1 capacidade de analisar a situa\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios pa\u00edses e depender\u00e1 de an\u00e1lises de outros pa\u00edses, feitas conforme interesses diferentes dos seus&#8217;.<\/p>\n<p>Stuenkel elogia, contudo, o car\u00e1ter meritocr\u00e1tico da sele\u00e7\u00e3o de diplomatas. Segundo ele, &#8216;o Itamaraty \u00e9 o \u00fanico minist\u00e9rio do governo brasileiro que um novo presidente n\u00e3o consegue encher com seus aliados&#8217;.<\/p>\n<p>A imunidade do \u00f3rg\u00e3o a apadrinhamentos e indica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, diz ele, fez com que os diplomatas ganhassem boa reputa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por outro lado, afirma Stuenkel, num pa\u00eds desigual como o Brasil, a meritocracia acaba por privilegiar &#8216;um grupo bastante elitizado&#8217;.<\/p>\n<p>&#8216;O Itamaraty j\u00e1 mudou bastante, j\u00e1 tem uma composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica diferente, diplomatas de origem mais humilde. Mas, como todas as institui\u00e7\u00f5es de elite no Brasil, ainda n\u00e3o conseguiu refletir a diversidade da sociedade brasileira&#8217;.<\/p>\n<p>O Itamaraty diz que tem se esfor\u00e7ado para ampliar a diversidade \u00e9tnica e social dos seus quadros. Por meio de sua assessoria de imprensa, o \u00f3rg\u00e3o citou seu programa de a\u00e7\u00e3o afirmativa, iniciado em 2002.<\/p>\n<p>O programa concede bolsas para que candidatos negros se preparem para o concurso para o Instituto Rio Branco. Uma reportagem da BBC Brasil em 2012 revelou, por\u00e9m, que apenas 2,6% dos candidatos aprovados desde o in\u00edcio do programa eram negros que se beneficiaram das bolsas.<\/p>\n<p>O professor Oliver Stuenkel questiona, ainda, o grande peso que se d\u00e1 ao conhecimento acad\u00eamico na sele\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de diplomatas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Segundo ele, o trabalho do diplomata brasileiro se distancia cada vez mais da &#8216;diplomacia cl\u00e1ssica&#8217; e se aproxima de \u00e1reas t\u00e9cnicas do governo, como agricultura e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8216;Isso requer pessoas com interesses diversificados e que idealmente tenham experi\u00eancia de trabalho, e n\u00e3o s\u00f3 jovens academicamente brilhantes&#8217;.<\/p>\n<p>J\u00e1 para o diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, o concurso para diplomatas j\u00e1 atrai candidatos com forma\u00e7\u00f5es e compet\u00eancias variadas.<\/p>\n<p>&#8216;H\u00e1 muita gente brilhante e que se destacou nas v\u00e1rias \u00e1reas de que o Itamaraty cuida, como com\u00e9rcio, meio ambiente e direitos humanos.&#8217;<\/p>\n<p>Ele defende que a forma\u00e7\u00e3o de diplomatas continue privilegiando uma &#8216;abordagem de cultura human\u00edstica geral&#8217;.<br \/>\n&#8216;Embora tenda a exigir uma especializa\u00e7\u00e3o, a diplomacia \u00e9 em grande parte uma atividade pol\u00edtica, que exige uma personalidade dotada de cultura ampla para compreender outros povos e mentalidades&#8217;.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o de vagas nos \u00faltimos concursos, Ricupero diz se tratar de processo natural ap\u00f3s o forte crescimento do minist\u00e9rio na gest\u00e3o do ent\u00e3o chanceler Celso Amorim (2003-2011).<\/p>\n<p>&#8216;O Brasil j\u00e1 tem uma das maiores redes (diplom\u00e1ticas) do mundo, n\u00e3o d\u00e1 para continuar expandindo muito mais&#8217;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradicionalmente um dos mais dif\u00edceis do pa\u00eds, concurso est\u00e1 especialmente concorrido; participantes dizem que prova se tornou excessivamente &#8216;subjetiva&#8217;. 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