{"id":57263,"date":"2017-03-27T08:04:47","date_gmt":"2017-03-27T11:04:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.radiopajeu.com.br\/portal\/?p=57263"},"modified":"2017-03-27T08:04:47","modified_gmt":"2017-03-27T11:04:47","slug":"ministerio-publico-mira-26-matadouros-pernambucanos-o-de-carnaiba-esta-entre-eles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.radiopajeu.com.br\/portal\/ministerio-publico-mira-26-matadouros-pernambucanos-o-de-carnaiba-esta-entre-eles\/","title":{"rendered":"Minist\u00e9rio P\u00fablico mira 26 matadouros pernambucanos, o de Carna\u00edba est\u00e1 entre eles"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Locais tiveram pedidos de interdi\u00e7\u00e3o por funcionarem de forma prec\u00e1ria, colocando em risco o produto que chega \u00e0 mesa. S\u00f3 neste ano, pelo menos quatro j\u00e1 foram fechados<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Da Folha PE<\/em><\/p>\n<p>Um galp\u00e3o no meio de um descampado \u00e9 a primeira vista que os olhos alcan\u00e7am do cen\u00e1rio de uma matan\u00e7a. Os urubus insistentes e o cheiro forte conduzido pelo vento s\u00e3o s\u00f3 os primeiros e inc\u00f4modos sinais da irresponsabilidade que est\u00e1 prestes a se revelar. Por tr\u00e1s das paredes com pintura desgastada, carne bovina \u00e9 manipulada sem que o m\u00ednimo de higiene pare\u00e7a ter significado. C\u00e3es conformados com as v\u00edsceras que carregam na boca deitam-se sob a sombra.<\/p>\n<p>Dois funcion\u00e1rios que persistem no local recolhem e guardam materiais que ainda ser\u00e3o usados mais duas vezes ao longo da semana. Em poucos dias, o curral estar\u00e1 cheio de gado novamente, o mesmo cuja carne chegar\u00e1 a mesas n\u00e3o muito distantes dali. A poucos metros dali, urubus sobrevoam o curral, j\u00e1 sem bois ap\u00f3s uma madrugada de matan\u00e7a. Est\u00e3o interessados nas carca\u00e7as de chifres e cabe\u00e7as descartadas pr\u00f3ximo ao matadouro.<\/p>\n<p>Razo\u00e1vel seria se essa situa\u00e7\u00e3o, encontrada no Matadouro P\u00fablico de Jurema, no Agreste de Pernambuco, fosse uma exce\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9. Se o Brasil ficou chocado com os resultados da Opera\u00e7\u00e3o Carne Fraca, da Pol\u00edcia Federal, que investiga crimes que macularam a credibilidade da produ\u00e7\u00e3o de frigor\u00edficos grandes e donos de marcas conhecidas, por outro lado, parece negligenciar h\u00e1 d\u00e9cadas o que ocorre em abatedouros p\u00fablicos em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria no Estado.<\/p>\n<p>O de Jurema foi interditado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico de Pernambuco (MPPE) um dia ap\u00f3s a\u00a0<strong>Folha de Pernambuco<\/strong>\u00a0ir ao local. Pelos menos outros tr\u00eas tiveram as portas cerradas neste ano por condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias entre eles os de Floresta e Carna\u00edba, no Sert\u00e3o, e S\u00e3o Jo\u00e3o, no Agreste. Outros 26 tiveram o pedido de fechamento feito por promotores. E nos \u00faltimos seis anos, 57 estabelecimentos do tipo foram interditados ou desativados por irregularidades semelhantes.<\/p>\n<p>\u201cVerificamos que muitos matadouros funcionam h\u00e1 anos gerando riscos ao meio ambiente e com ilegalidades em todo o processo sanit\u00e1rio, o que \u00e9 um risco evidente \u00e0 sa\u00fade do consumidor. Do jeito que est\u00e1, n\u00e3o pode continuar&#8221;, avalia a promotora Liliane Fonseca, coordenadora do Centro de Apoio Operacional \u00e0s Promotorias de Justi\u00e7a (Caop) de Defesa do Consumidor do MPPE.<\/p>\n<p>Em parceria com promotorias municipais, a institui\u00e7\u00e3o desenvolve, desde 2011, o programa Carne de Primeira, que j\u00e1 resultou em 19 inqu\u00e9ritos civis e 24 a\u00e7\u00f5es civis p\u00fablicas acerca de matadouros em situa\u00e7\u00e3o irregular.<\/p>\n<p><strong>Normas &#8211;\u00a0<\/strong>Para funcionar de forma adequada, um matadouro deve atender normas n\u00e3o s\u00f3 relativas \u00e0 qualidade da carne, mas ambientais e trabalhistas. O de Jurema parece padecer de boa parte dos males gerados pela falta de aten\u00e7\u00e3o a essas regras. A \u00e1gua residual do abate, imunda, corre por v\u00e1rios sulcos na terra. Cachorros defecaram pr\u00f3ximo \u00e0 porta do estabelecimento, perto de onde as carnes costumam ser manipuladas. Moscas est\u00e3o presentes \u00e0s dezenas, atra\u00eddas pela sujeira.<\/p>\n<p>Com um misto de vergonha e resigna\u00e7\u00e3o, um funcion\u00e1rio do matadouro resmunga: &#8220;\u00c9 isso aqui que alimenta a boca de dez fam\u00edlias&#8221;. Servidor p\u00fablico que \u00e9, n\u00e3o teme propriamente por si, mas pelas pessoas que, indiretamente, se beneficiam da atividade prec\u00e1ria: negociadores de gado, vendedores e at\u00e9 mesmo pedintes em busca de sobras \u00e0s ter\u00e7as, sextas e s\u00e1bados, dias de matan\u00e7a dos bois.O matadouro foi interditado na \u00faltima quarta-feira, um dia ap\u00f3s a visita da reportagem da<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong>Folha de Pernambuco<\/strong><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>ao local.<\/p>\n<p>Conforme a promotora de Justi\u00e7a de Jurema, Mariana C\u00e2ndido, o estabelecimento ser\u00e1 alvo de uma reuni\u00e3o daqui a 15 dias para avaliar a ado\u00e7\u00e3o de medidas. Por enquanto, o abate passar\u00e1 a ser feito em Canhotinho.<\/p>\n<p>\u201cUm inqu\u00e9rito civil foi instaurado para apurar essa situa\u00e7\u00e3o. Sabemos que a atividade de abate \u00e9 naturalmente poluente e tem manuten\u00e7\u00e3o muito cara. J\u00e1 era dif\u00edcil e, com a crise, ficou ainda mais\u201d, avaliou. Nenhum representante da prefeitura foi encontrado pela reportagem in loco ou por telefone.<\/p>\n<p><strong>O impasse das exig\u00eancias &#8211;\u00a0<\/strong>Uma placa afixada na entrada do Matadouro Municipal de Cupira,tamb\u00e9m no Agreste, indica que o local foi reformado h\u00e1 oito anos. As expectativas geradas pelo aviso s\u00e3o correspondidas em parte.<\/p>\n<p>Dentro do pr\u00e9dio, um ambiente bem mais limpo afasta a repugn\u00e2ncia causada pelas passagens anteriores por abatedouros em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria. Mas a presen\u00e7a de um gato por perto e o pouso insistente de moscas sobre a carne prestes a ser transportada para a\u00e7ougues s\u00f3 evidencia que, quando se fala em produ\u00e7\u00e3o de carne bovina, responsabilidade pela metade n\u00e3o deveria ser admitida. N\u00e3o \u00e0 toa, se n\u00e3o passar por novas adequa\u00e7\u00f5es, o local pode ser fechado em at\u00e9 tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>A delibera\u00e7\u00e3o foi tomada ap\u00f3s uma fiscaliza\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia de Defesa e Fiscaliza\u00e7\u00e3o Agropecu\u00e1ria (Adagro), em janeiro, ap\u00f3s acionada pelo MPPE. Entre as necessidades, est\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o de passarelas que permitam o acesso dos funcion\u00e1rios ao curral sem contato direto com os animais e a aquisi\u00e7\u00e3o de mais equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual. Serras para uso em diferentes partes da carca\u00e7a do animal tamb\u00e9m s\u00e3o exigidas pelas normas. L\u00e1, s\u00f3 h\u00e1 uma para tudo.<\/p>\n<p>Outra cobran\u00e7a dos fiscais \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o de uma pistola pneum\u00e1tica durante a matan\u00e7a. O equipamento, com ar comprimido, deve ser disparado, de prefer\u00eancia uma s\u00f3 vez, sobre a parte frontal da cabe\u00e7a do boi, desnorteando-o para &#8220;evitar&#8221; um sofrimento maior e um estresse antemorte.<\/p>\n<p>Nesse processo, o animal \u00e9 pendurado pelas patas traseiras, ainda inconsciente, e segue para a fase da sangria. A vida se esvai quando \u00e9 feito um corte na car\u00f3tida e da jugular do bovino. Em Cupira, Jurema e boa parte dos matadouros do Interior, por\u00e9m, o abate \u00e9 feito de um modo ainda mais cruel: o boi \u00e9 tombado e recebe marretadas na cabe\u00e7a. Quando d\u00e1 o \u00faltimo suspiro, geralmente, est\u00e1 com o cr\u00e2nio esfacelado e os olhos esbugalhados.<\/p>\n<p>Em Cupira, todas as ter\u00e7as e sextas-feiras, cerca de cem bois s\u00e3o abatidos e abastecem mercados e feiras da pr\u00f3pria cidade, al\u00e9m de Agrestina e Panelas, na mesma regi\u00e3o. &#8220;Ningu\u00e9m nunca teve problema com a carne. Para o nosso padr\u00e3o, ningu\u00e9m reclama&#8221;, ameniza o diretor do matadouro, Gustavo Danilo. O secret\u00e1rio municipal de Agricultura, Edson Calado, completa com uma dose de pragmatismo: a prefeitura n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o de adequar o estabelecimento \u00e0s condi\u00e7\u00f5es exigidas. &#8220;S\u00f3 a pistola custa R$ 30 mil, a cadeira tamb\u00e9m \u00e9 algo complicado. Fazer essas adapta\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o custar mais de R$ 800 mil, \u00e9 muito pesado para cidades como a nossa&#8221;, declara.<\/p>\n<p><strong>Concorr\u00eancia &#8211;\u00a0<\/strong>A situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria de alguns matadouros, al\u00e9m de expor os riscos da carne produzida em v\u00e1rias regi\u00f5es do Interior do Estado, revela um problema de viabilidade econ\u00f4mica. Como manter o equil\u00edbrio financeiro e investir em estabelecimentos que sofrem a concorr\u00eancia de cidades vizinhas?<\/p>\n<p>Em Jurema, por exemplo, segundo funcion\u00e1rios, cerca de dez bovinos s\u00e3o abatidos em cada um dos tr\u00eas dias de matan\u00e7a. No restante da semana, as instala\u00e7\u00f5es e os funcion\u00e1rios ficam ociosos.<\/p>\n<p>A apenas 36 quil\u00f4metros dali, h\u00e1 outro matadouro em atividade. &#8220;O n\u00famero de abates n\u00e3o justifica cada munic\u00edpio ter um abatedouro. N\u00e3o conseguem se manter, o custo \u00e9 alto, e acabam funcionando de forma irregular, sem que saibamos a proced\u00eancia da carne, tampouco como ocorre seu transporte e armazenamento&#8221;, afirma a promotora Liliane Fonseca, do Caop de Defesa do Consumidor.<\/p>\n<p>O que parece ser consenso entre MPPE, prefeituras e Governo do Estado para solucionar as precariedades desses estabelecimentos \u00e9 a instala\u00e7\u00e3o de matadouros regionais. Grupos de munic\u00edpios formariam cons\u00f3rcios para investir em locais que atendessem, conjuntamente, \u00e0s necessidades de produ\u00e7\u00e3o de carne de uma popula\u00e7\u00e3o maior.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Cupira, Panelas, Lagoa dos Gatos e Agrestina, pr\u00f3ximas entre si. &#8220;\u00c9 uma tend\u00eancia acabar com os matadouros municipais. \u00c9 uma ideia interessante, porque investir quase R$ 1 milh\u00e3o para adequar o nosso matadouro, que tem uma estrutura antiga, e n\u00e3o ter retorno econ\u00f4mico, \u00e9 algo bastante complicado&#8221;, explica o secret\u00e1rio de Agricultura de Cupira, Edson Calado.<\/p>\n<p>Prefeito de Barra de Guabiraba, tamb\u00e9m no Agreste, Wilson Madeiro viu o matadouro da cidade ser alvo de uma fiscaliza\u00e7\u00e3o h\u00e1 poucos dias. O desfecho n\u00e3o foi diferente dos de regi\u00f5es vizinhas: o estabelecimento ter\u00e1 que ser fechado em at\u00e9 20 dias. Como solu\u00e7\u00e3o, o gestor defende algo parecido \u00e0 cobran\u00e7a pelo cumprimento da Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos, que, apesar dos atrasos, vem gerando a\u00e7\u00f5es compartilhadas entre munic\u00edpios para dar fim a lix\u00f5es e destinar produtos descartados de forma correta.<\/p>\n<p>&#8220;Vencer esses desafios exige a\u00e7\u00f5es cooperadas. Se sobrar s\u00f3 para cada munic\u00edpio, n\u00e3o se est\u00e1 preparado para adquirir verba e construir [um matadouro], muito menos num tempo curto&#8221;, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Locais tiveram pedidos de interdi\u00e7\u00e3o por funcionarem de forma prec\u00e1ria, colocando em risco o produto que chega \u00e0 mesa. 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