História

Dom Mota com funcionários da Rádio Pajeú e do Cine Pajeú. Rádio e Cinema eram paixões do visionário Bispo – Década de 1960

Dom Mota com funcionários da Rádio Pajeú e do Cine Pajeú. Rádio e Cinema eram paixões do visionário Bispo – Década de 1960

A Rádio Pajeú de Afogados da Ingazeira, a primeira emissora do Sertão Pernambucano, nasceu em 04 de outubro de 1959, fruto do processo de expansão da radiodifusão no Estado de Pernambuco. Em todos esses anos esteve inserida como um agente histórico nos principais momentos da região. Na nossa História Política, nas transformações Sociais e Culturais do estado de Pernambuco e do Brasil em mais da metade do Século XX, e nestes anos iniciais do século XXI a Rádio Pajeú foi um veículo presente e atuante na divulgação dos fatos históricos que marcaram este período.

Sustentando o compromisso ético em ser uma emissora voltada para o serviço à comunidade, a Rádio Pajeú vem defendendo na sua grade de programação temas diversos que suscitam debates mobilizando as múltiplas comunidades que compõem essa região. Além disso, desenvolve com eficiência e liderança, a defesa das nossas tradições e manifestações culturais, enfocando tais valores dentro de uma perspectiva não somente informativa, mas, sobretudo, de conscientização cidadã. Esse compromisso com a conscientização e cidadania sempre esteve presente desde o momento de sua inauguração no ano de 1959.

Foi através das ideias e mãos de um bispo visionário, Dom João José Mota e Albuquerque, que viu no rádio um veiculo perfeito no processo não apenas de evangelização, mas especialmente o de criar um espaço de difusão de valores éticos, políticos e socioculturais, além de propor e efetuar uma formação educativa fundamental ao desenvolvimento da comunidade, que a emissora foi fundada, desbravando a comunicação no Sertão Pernambucano.

Tarcísio Sá, nos estúdios do Bairro são Francisco, hoje Museu do Rádio – Década de 1960

Tarcísio Sá, nos estúdios do Bairro são Francisco, hoje Museu do Rádio – Década de 1960

Em 1961, através do processo de implantação do Projeto das Escolas Radiofônicas, a Rádio passou por uma das fases mais importantes de sua história. Esse projeto fazia parte de um movimento maior patrocinado pelo Movimento de Educação de Base (MEB), ligado à Igreja Católica, com o objetivo de utilizar o potencial difusor do rádio a serviço da educação, principalmente nas áreas rurais. Um dos que mais incentivaram esta proposta foi o sucessor de Dom Mota, Dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho, que assumiu ainda no ano de 1961 o pastoreio na Diocese de Afogados da Ingazeira, continuando a política em relação à rádio, iniciada pelo seu antecessor. O projeto das Escolas Radiofônicas difundiu-se de maneira vertiginosa chegando à marca de mais de 405 unidades na diocese de Afogados da Ingazeira, tendo como centro difusor a Rádio Pajeú. Porém, os anos de intolerância a partir do Golpe Militar em 1964, foram um forte obstáculo. Houve apreensão de vários equipamentos do projeto, principalmente rádios. Dom Francisco, a Rádio Pajeú e os integrantes do projeto, chegaram a ser taxados de comunistas.

“ Eu disse na cara de 14 generais, os senhores agiram como um cidadão que ao invés de apertar a torneira do chuveiro, fica enfiando palitos nos buracos. Eles sabiam que se tirassem a rádio do ar teriam de enfrentar o país e dar explicações sobre o seu fechamento. Ainda bem que não me prendiam, respeitavam a igreja”, disse sobre o episódio o Bispo Dom Francisco. Dias depois, os aparelhos apreendidos foram devolvidos. Em 1968, muitos programas foram censurados pelos órgãos da repressão. A força de Dom Francisco através de sua voz e o pioneirismo ainda assim mantiveram a Pajeú como uma das principais emissoras do Sertão e do estado Pernambucano.

Vianey Veras, Waldecir Menezes e Dinamérico Lopes testam equipamento de transmissão – década de 1970

Vianey Veras, Waldecir Menezes e Dinamérico Lopes testam equipamento de transmissão – década de 1970

Destaca-se em toda a sua história em especial o nome de um radialista que é uma espécie de patrono do rádio interiorano: Valdecyr Xavier de Menezes, convidado por Dom Mota para assumir a emissora, deixou a Rádio Clube de Pernambuco, à época a Rádio mais potente do estado e esteve desde a fundação da Rádio Pajeú até falecer em 04 de dezembro de 1989 aos 61 anos. A emissora acompanhou passo a passo o processo de democratização do país e acompanhou a chegada das novas tecnologias.

Atualmente, a Rádio Pajeú tem uma programação com informação, música, prestação de serviço e um espaço especial para evangelização, com participação de representantes da Igreja, como Bispos e Sacerdotes. Muitos foram os profissionais revelados para emissoras de rádio de todo o país. Nomes como Anchieta Santos, Augusto Martins, Elias Mariano, Vanderley Galdino, Celso Brandão, Aldo Vidal, Nill Júnior, Micheli Martins e Juliana Lima passaram ou ainda permanecem na emissora.

A Pajeú é líder de audiência na região e difunde seu som também através da Internet. Sua programação já lhe rendeu vários prêmios, com destaque para o Ayrton Senna de Jornalismo e o Microfone de Prata (UNDA/CNBB) pelos relevantes serviços prestados a toda a região.

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Em 15 de outubro de 2001, no Palácio Episcopal de Afogados da Ingazeira, o então Bispo Diocesano Dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho falou sobre a emissora:

1. De quem foi a ideia e o projeto de trazer para Afogados a Rádio Pajeú, quando isso aconteceu e qual era o objetivo da emissora?

Dom. Francisco – Dom João José da Mota e Albuquerque, primeiro Bispo desta Diocese de Afogados, e meu antecessor foi quem idealizou e instalou aqui a Rádio Pajeú. Isso se deu em 1959. Esta rádio entrou no ar oficialmente no dia 04 de outubro daquele ano. Recebeu o nome de Rádio Pajeú de Educação Popular LTDA, primeiro porque é uma característica do lugar ser conhecida como região do Pajeú, depois por ter como objetivo educar, sobre o que falaremos no momento oportuno, e por fim LTDA que caracteriza uma sociedade comercial. Isso é o que era a Rádio Pajeú quando nasceu: uma sociedade comercial. Surgiu da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) o projeto de educar as populações das regiões mais subdesenvolvidas do país, Norte e Nordeste. Esse projeto foi desenvolvido para educar as pessoas por meio de escolas radiofônicas. Então para que ele fosse colocado em prática fazia-se necessário à instalação de uma rádio, porque as pessoas iriam receber aulas através dela, na sintonia de um rádio, o qual era chamado de rádio cativo. Chamava-se assim por que só sintonizava a emissora local, através da qual era desenvolvido o projeto. Naquela época foi a forma prática que se encontrou para que não houvesse evasão por parte dos alunos, no MEB (Movimento de Educação de Bases), como foi chamado e ficou conhecido o projeto. Assim surgiu a Rádio Pajeú, para atender uma necessidade básica e essencial à existência e prática do MEB. Lamentavelmente, Dom Mota não teve a alegria de inaugurar as escolas radiofônicas. Isso foi feito por mim. Cheguei aqui no dia 16 de setembro de 1961 e tomei posse nesta Diocese no dia seguinte, 17 de setembro. Uma vez empossado como novo e segundo Bispo da Diocese, tratei logo de entrar em contato com a CNBB para conseguir os recursos necessários para funcionamento das escolas radiofônicas, a Rádio já existia. Esses recursos eram: rádios cativos, pilhas para que pudessem funcionar, lampiões, combustível para este, quadro negro e giz. Vale salientar que essas escolas radiofônicas, que eram para educar a longa distância, já existiam na Colômbia e em outras partes do mundo. Para a realização deste projeto, eram convidadas pessoas pra prestarem seus serviços voluntariamente. Foi formada uma Equipe Diocesana, cujas pessoas ainda estão todas vivas. Seus membros eram: Hildete Maria campos de Oliveira, irmão de Rogério Oliveira, atual Diretor da Rádio Pajeú, sua irmã Claudete e o próprio Rogério Oliveira. D. Hildete era a Coordenadora Diocesana. As equipes recebiam treinamentos que duravam em meda seis messes. Como era um projeto nacional, havia a coordenadora nacional, as coordenadoras estaduais e as diocesanas. As coordenadoras estaduais iam até Brasília para receberem o treinamento, enquanto que as coordenadoras diocesanas deslocavam-se até Recife para isto. Quando estas retornavam da Capital, davam treinamentos para as equipes municipais. Estas se reuniam aqui em Afogados, Serra Talhada, Triunfo, de acordo com as zonas, que são Alto, Médio e Baixo Pajeú, e, também visando a melhor localização e o menor custo possível para a realização dos treinamentos. As equipes municipais recebiam o nome de monitoras e eram formados por pessoas da própria comunidade. Era feito um trabalho de divulgação sobre o projeto através da própria Rádio. Depois dessa divulgação, convidávamos pessoas que quisessem ser responsáveis na comunidade pelo material utilizando, rádio, giz, quadro negro, e também para monitorarem as aulas. Feito todo esse trabalho preparativo, estava implantando o MEB.A equipe diocesana preparava e dava as aulas pela Rádio, e também fazia visitas à noite, às comunidades para acompanhar o trabalho das monitoras e verificar se tudo estava funcionando bem. As escolas radiofônicas só precisavam de uma pessoa responsável, lampião com combustível, um rádio cativo com pilhas, quadro negro e giz. Tudo tinha que esta funcionando muito bem. Tanto a equipe de coordenação como as equipes municipais cuidavam para o bom desempenho do projeto. Por exemplo, se um rádio se quebrava, imediatamente era trocado. As pessoas que trabalhavam de forma voluntária, eram praticamente todas mulheres, tudo que ganhavam era um simples presente no final de cada treinamento. Chegamos a ter 405 (quatrocentas e cinco) escolas radiofônicas. Elas só existiam no meio rural, na cidade já avia colégio, e eram voltadas para a educação de adultos. Na Zona Rural as condições de vida eram precárias, no Sítio Carapuça, por exemplo, nunca tinha ido um carro, o meu foi o primeiro a ir até lá. O governo criou o Movimento de Educação para adultos, semelhante ao que fora criado pela CNBB, porém, praticado diferentemente do nosso. As professoras que trabalhavam para a realização do projeto do governo eram remuneradas, também não era feito por meio de rádio. A educação do projeto do governo não era como a nossa. O MEB era educação política, no sentido bom da palavra, torna a pessoa gente, consciente. Para nós não era mais importante aprender a desenhar o nome. O Rei Carlos Magno nunca assinou o nome e dominou o mundo, a Europa inteira. Antigamente os reis possuíam um anel que tinha suas armas, com o qual assinavam-se os documentos. Ainda há a expressão: “assinando sob minhas armas e anel”. Nossas aulas tinham como objetivo fundamental conscientizar as pessoas de que são pessoas, gente capaz, não são escravas, não são bichos. Ensinávamos sobre cidadania, o que era uma cooperativa, um sindicato, como estes órgãos funcionavam, sobre as leis fundamentais, os direitos humanos, também eram acrescentadas aulas de catecismo. Naquela época este tipo de educação foi uma REVOLUÇÃO. Há quem diga que o modo de ser as pessoas, a consciência, a forma de se organizar e se juntarem para defenderem seus direitos, nestes municípios da nossa Diocese, é diferente das demais regiões. Exageram quando dizem que eu sou o culpado disso. O primeiro instrumento de trabalho que usei foi o MEB e muito se deve a este projeto.

2. Quais foram as principais dificuldades enfrentadas para que se concretizasse o projeto da Rádio Pajeú e ela se instalasse de fato?

Dom Francisco – Relativamente foi muito fácil. A CNBB queria e a Rádio foi instalada. Nesse período não tínhamos problemas com o governo, de modo que não tivemos que enfrentar burocracias.

3. De onde saíram os recursos para implantação da Rádio Pajeú?

Dom Francisco – Os recursos provieram de seus sócios que eram: Dom. Mota que participava com a maioria absoluta de quotas, 796 (setecentas e noventa e seis), o vigário Antônio de Pádua Santos, com 2 (duas) quotas, e seu HelvécioLima, pai de doutor Jesus, também com a participação de 2 (duas) quotas, totalizando assim 800 (oitocentas) quotas.

4. Uma vez instalada a Rádio Pajeú, quais foram suas principais dificuldades, especialmente no que se refere aos recursos técnicos e financeiros?

Dom Francisco – Da mesma forma que a gente treinou o pessoal para implantar o MEB, também treinou os técnicos, como se faz ainda hoje. Quanto ao sistema técnico, nós optávamos por ter dois transmissores um ficava na ativa e outro na reserva. Era difícil a manutenção por que aqui na cidade de Afogados não tinha energia para a Rádio, a energia que era fornecida por monitor só iluminava das 18 às 21 horas e era muito fraca. Então a Rádio tinha que ter monitor próprio para gerar sua energia, isso dificultava ainda mais de manter o sistema. Quando, chegou energia do São Francisco, através da Hidrelétrica de Paulo Afonso para esta cidade, as coisas melhorando para a Rádio, não precisava mais gerar energia para funcionar. Mas ainda hoje a assistência técnica custa caro, porque não dispomos de técnicos especializados na manutenção de sistemas das rádios, aqui na região. Isto é um dos problemas das emissoras do interior. Financeiramente, a Rádio Pajeú se mantinha com a realização de alguns programas de musica, por exemplo, e propagandas comerciais de todas as cidades circunvizinhas. Não avinha nenhuma rádio para concorre com a Pajeú, esta era a única no Sertão de Pernambuco, é bom que se saiba. Arcoverde não tinha Rádio, nem Petrolina. Só tinha uma rádio em Pesqueira que era filial da Rádio Comércio de Recife. Assim a Rádio Pajeú entrava em lugares como: Rio Grande do Norte, Alagoas, Paraíba, Bahia, Ceará, lugar onde eu sintonizava quando viajava para visitar minha família. A Diocese nunca tirou nada da Pajeú, pelo contrário aqui a escola tinha que ajuda-la na manutenção.

5. Qual era o contexto sócio-político a viciado no Brasil quando nasceu a Pajeú?

Dom Francisco – O contexto socioeconômico e cultural era de subdesenvolvimento, sócio, aquela efervescência em torno do trabalhismo. João Goulart era vice-presidente e depois assumiu a presidência. A dominação dos chamados coronéis era maior do que hoje, se hoje coronéis já são donos de votos, imagine há 42 anos. Então quem mandava em cada município era o chefe político, chamado chefe político. O governador quando visitava o município, ficava na casa daquele chefe político, e o tal chefe era quem indicava ao governador o nome das professoras e serem nomeados. Uma das coisas muito importantes daquele tempo era a nomeação de professores que eram muito perseguidas, inclusive. Quando um lado ganhava, a primeira coisa que fazia era transferir as professoras do outro lado. A transferência se dava, por exemplo, daqui para Petrolina. Sendo uma Sra. casada, como deixar o marido e três ou quatro filhos. Então ela acabava abandonando seu cargo. Era exatamente isso que eles queriam, para poderem nomear outra professora. Os delegados não eram formados, eram policiais à disposição do chefe político. Os coletores eram nomeados pelos chefes políticos. Hoje ainda há muito dessas coisas com organizações que não existiam naquela época. Por exemplo, não tinha DRE, não tinha DRES, então era mais fácil ainda controlar a situação. Os partidos políticos, infelizmente continuam a mesma coisa daquela época, nenhum tem seriedade. Seus membros trocam de partido como mulher de vestido. Naquele período as secas eram muito piores tratadas do que são hoje, porque o governador fazia o que bem queria.

6. Quais e como foram os primeiros passos da Rádio Pajeú?

Dom Francisco – Ela começou seus passos sem ter praticamente onde ser instalada, suas existência iniciou-se numa casinha muitos simplória, juntamente com seus estúdios, no bairro São Francisco. Muito tempo depois é que ela começou a funcionar no centro da cidade. Por isso é que tinha uma casa na rua por onde se vai ao banco do Brasil que era os estúdios do MEB, a equipe não podia ficar atravessando o rio cheio para realizar as aulas.

7. O projeto de educação popular foi afetado pela ditadura militar, o que representou para a Rádio Pajeú, a publicação do AI – 5 (Ato Instituição Nº 05), houve a reação da Rádio contra a ditadura?

Dom Francisco – Quando se instalou a ditadura militar em 1964, os policiais invadiram as escolas radiofônicas apreendendo todo o material de trabalho, quebraram muitos rádio, atiravam-nos sob o chão, dizendo que tudo era comunismo, era contra a revolução. Com o AI – 5 toda programação passava a ser censurada e controlada pelos ditadores, só era permitido passar o que eles queriam. Claro que os Estados Unidos não tinham interesse nenhum, como não tem ainda hoje, que o Brasil se desenvolvesse, e custeou a revolução de 64, esta foi feita com o dinheiro deles. Este homem que fala com você, fez tudo o que era possível fazer. Enfrentei os 14 generais, pessoalmente. Eu disse a eles, se os senhores não querem o projeto funcionando, tinham que ter fechado a rádio. Eu disse na cara deles, os senhores agiram como um cidadão que ao invés de apertar a torneira do chuveiro, que pra tudo ficaram enfiando palito, palito, palito nos buracos. Se vocês mandarem a polícia é tão fácil, não são tão poderosos. Mas sabiam que se tirassem a rádio do ar teriam de enfrentar o país e dar explicações sobre o fechamento da mesma. Ainda bem que não me prendiam, respeitavam a igreja. A fé do povo naquele tempo era muito maior, mesmo assim a igreja foi muito perseguida. Contudo, eu consegui ainda, que eles mandassem aqui um oficial, o Capitão Martim, para entregar-me os rádios, as lamparinas, os quadros negros, que estavam na cadeia, os que não se tinham quebrado, já que os policiais atiravam tudo no chão e diziam: Isso é coisa de Arraes e Arraes é comunista. Deram-me autorização para reabrir as escolas. Eu as reabri, mas não deu mais. O pai dizia, nunca vi a polícia em minha casa, minha filha não vai mais. Outro pai dizia por mim pode, mas a filha dizia eu não vou. Fui ameaçada, caso volte, ter de atravessar o Rio Pajeú a nado com o rádio na cabeça. A revolução aconteceu em março e tinha havido inverno. A ditadura acabou com o MEB, foi o fim do revolucionário projeto.

8. Como senhor avalia de forma comparativa essas quatro décadas de trabalho e pioneirismo da Rádio Pajeú?

Dom Francisco – A gente quer muitas vezes que tenho tempo, eu relembro que ela deve ser de educação popular. Mas todos nós somos dependentes do ambiente em que vivemos. Ninguém pode dizer: eu não me deixo levar pelo ambiente. O homem é tão bem fruto do meio onde vive. Dizia um provérbio antigo: Quem convive com os bons será igual a um deles, quem convive com os maus, será pior do que eles. Hoje, para mim, o próprio conceito de educação mudou muito. Eu lhes dizia falando da minha educação, educação de base, educação que forma as pessoas para serem pessoas, para serem gente. Hoje a educação que vejo, é a educação que procura despertar nas pessoas o amor do dinheiro, o amor do poder, o amor do prazer. O mundo está reduzido para muita, muita, muita gente a essas três coisas. O dinheiro em primeiro lugar, para comprar o poder e o prazer. E isso é a vida. O próprio Deus parece escanteado. Outrora não se entendia educação sem ensino religioso, agora não é assim. Cheguei, num tempo passado, a pedir a relação dos discos que haviam na Pajeú, por que se eu achava que não eram educativos, no sentido de que entendo, eu os retirava. Mas a gente cansa. De tanto dá murro em ponta de faca, furasse e desiste. Já não tenho mais esse controle. Vou ficar a partir do dia 27 deste mês de outubro, sem controle algum. Sei que se compararmos com outros rádios notaremos alguma diferença, mesmo na questão de propaganda comercial. Nós não aceitamos todas, algumas rejeitamos por achar que não educam. O mundo mudou e eu não mudei, por isso não me conformo com muitas mudanças que há. A própria situação de muitas rádios, a torta e a direita, com programas às vezes escandalosos, tanto no campo político como no social, no econômico e no campo moral, não deixa de influir também nas outras rádios. Eu lhes dizia da boa ideia que tenho da mulher. Desejo que ela se desenvolva, que assuma o poder deste mundo, o que é uma das minhas esperanças. Mas receio de que nesse feminismo não haja excesso da mulher querer imitar, não as coisas boas que o homem também as tem, mas os defeitos, as falhas destes, como beber cachaça, embriagar-se, fumar maconha, prostituir-se… Faço votos a Deus que com a chegada do novo Bispo, Dom Frei Luiz Gonzaga Silva Pepeu, ele consiga renovar, renovação esta que eu diria restauração, o que quer dizer voltar as fontes, ser como era antes, esta rádio. A Rádio Pajeú não é escandalosa, não está ligada a nenhum partido político. Talvez haja pessoas que a vejam assim, ligada a outro partido político, já que não é ligado a seu partido.

9. Qual é a situação atual da Rádio Pajeú, do seu ponto de vista ela continua sua meta principal, que é de educação popular?

Dom Francisco – Juridicamente, a Pajeú mudou. Ela começou sendo uma sociedade comercial e continuou até pouco tempo atrás. Ao longo desses 42 anos, houve mudanças de sócios, que como já sabemos eram, seu Helvécio Lima, Pe. Antônio e Dom Mota. Dom Mota passou para mim uma procuração com amplos poderes, através da qual administrei a Rádio por muito tempo. Depois, com muito trabalho, com a aprovação do meu nome pelos que estavam no poder, em plena ditadura militar, Dom Mota doou-me sus quotas de participação. Com a morte de Pe. Antônio comprei suas duas quotas, era um direito que eu tinha, estava no estatuto. Quando seu Helvécio Lima morreu, suas quotas passaram ao seu único herdeiro, seu filho Dr. Jesus. Então a rádio estava com dois sócios, eu e Dr. Jesus. Eu criei a Fundação Cultural Senhor Bom Jesus dos Remédios. Entrei em contato com o Dr. Jesus e doamos as quotas para a Fundação. O prédio onde funciona a Rádio não era dela, pertencia à Diocese que doou para a Fundação, também. A Fundação foi criada sem nada, todo patrimônio que ela tem é a Rádio Pajeú e seu prédio. Por que resolvi agir assim? A Fundação uma vez criada vai até o fim do mundo. Quando se tem uma sociedade com dois sócios como a da Rádio, corre-se o risco de deixar de existir. Eu poderia morrer e não ficar nenhum sócio, e assim acabaria a Rádio por falta de sócios. Para que não aconteça esse tipo de coisa, transformei-a em fundação. Foi um ano de luta e trabalho, que tive para conseguir essa mudança. Pelo estatuto desta fundação o Presidente dela será sempre o Bispo desta diocese. Logo, eu a presidirei até o dia 27 deste mês de outubro, dia em que será empossado o novo Bispo que assumirá a Diocese e, consequentemente, a presidência da fundação. Juridicamente a Rádio Pajeú não existe, agora ela é patrimônio da Fundação. A Rádio Pajeú está atravessando uma crise financeira muito séria, o que esperamos é que ela seja superada. Quanto à meta da Rádio Pajeú, que é de educação popular, devo dizer que o ideal é sempre inalcançável em plenitude, a não ser com Deus no céu. Como somos dependentes do meio em que vivemos, acabamos por ser influenciados. Apesar disso, embora com dificuldades se comparada a outras rádios tem algumas diferenças, está mais voltada para a educação sempre. Espero que o novo bispo a renove, isso quer dizer restaurar, voltar às fontes.

Entrevista concedida a Nill Júnior em 15 de outubro de 2001.

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